sábado, 29 de março de 2008

O REPUGNÁVEL ou ACABOU O TEATRO!

Dramaturgia rodriguiana com toques de Plínio Marcos, Otávio Martins e Carlos Canhamero, e de mais outros requintes de crueldade. Por BARRIGA DE CENA.

ATO I - cena 1

(Escondida na dispensa de um apartamento de uma grande cidade está a menina L (nome provisório). Amordaçada com um tecido enfiado na boca e um grosso esparadrapo por cima, ela ainda se encontra acorrentada pelos pulsos à uma janela, o que a obriga passar a maior parte do tempo na ponta dos pés. Chorando sem fazer barulho, ela lamenta ter sido entregue pela sua mãe à uma empresária cruel e sádica: Sílvia (nome definitivo), a encarnação do próprio mal. Que a obrigou a comer a bosta do cachorro, beber seu mijo, cortou a sua língua com alicates, martelou o seu pé e realizou sabe-se lá que outros tipos de tortura até ali!
Entra Sílvia com um serrote na mão e sua empregada maluca carregando baldes.)

SÍLVIA -L!!! Cheguei!!! Agora, minha filhinha, meu instrumento de masturbação sádica... Vou tentar deixa-la viva enquanto retiro carinhosamente os seus membros, um a um! E os colocos em baldes para enfeitar a sala! Minhas visitas vão adorar!

(Nesse momento chega um policial desastrado e salva a mocinha das garras de Sílvia. O policial fala como dublagens mal feitas nos filmes do Charles Bronson)

POLICIAL - Não se eu puder impedir! Agora você e a sua empregada, suas torturadoras,
vão ser processadas e podem “pagar” até 31 anos de prisão! Vão passar os próximos 5 anos pensando no que fizeram com essa pobre garotinha! E depois vão ter de agüentar a matéria do fantástico dizendo que vocês conseguiram sair por bom comportamento!

(Tudo pára. A fanfarra da imprensa atravessa o palco, composta por jornalistas, redatores, atores estúpidos e do povo do marketing jornalístico. Todos fazendo muito barulho. A fanfarra vai embora, mas deixa a Mãe e o Pai)

MÃE – Eu quero a guarda da minha filha! Eu só deixei L morar com a D. Sílvia porque
ela me falou que ia dar estudo, comida, lazer... Eu também ia ganhar uma graninha, né... sabe como é? Tipo um... Aluguel de filha, sabe? Que que eu pude fazer? Não tive escolha! Agora querem deixar a menina nas mãos do pai, que é um bêbado violento! Eu sou a mãe! Só eu posso dar a ela todo o carinho e a atenção para que isso não volte a acontecer!

(O pai não quis dar entrevista)

E o pior é que essa história é realidade... A fição não chegaria tão longe... Pareceria inverossímil!
Acabou... Acabou a ficção! Acabou o teatro!
A VIDA SUPERA A QUALQUER MALDADE DRAMATÚRGICA!!!!!!!!!!!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

A VACA TERMINOU COM O CARA

"Que assunto tão urgente fez o cara ligar desesperado, me chamando? Hum... Nossa! Já sei! A vaca terminou com o cara!

Até que enfim... Mas eu não posso ser escrachado, coitado dele... Tá na pior... É bom ajeitar a cara de pau e... Tocar a campainha."
- Opa...
- E aí? Beleza?
"Que pergunta imbecil..."
- Terminou...
" Muito cuidado agora! Não é hora de contar nada... Tem que primeiro dar uma consolada no cara...Antes de ser completamente sincero..."
- Putz... E você acha que... tipo, não tem volta?
- Tipo, não tem volta...
"Beleza!"
- Deixa para lá... Ela também... Não te valoriza e... E olha...Pra ser sincero...
"Hum... piso escorregadio... Não pegue pesado..."
- Todo mundo via mas... Ninguém falava nada, né? Medo que você ficasse... Tipo, triste e...Ela não ela não era uma boa pessoa. Abusava de você! Acho que no fundo é bom e...
"Aí sim! Isso! Aí está ótimo! Ah... Um alívio... Uma sensação de dever cumprido e..."
- Ela... Pôxa, ela... Ela era um pé no saco! Chata pra caramba!
"Ooooooooooopa!"
- Só um minuto! Deixa eu atender o celular!
"O celular? Não pode ser ela! Não pode, não pode..."
- Alô? (...) Sim... (...) Não! (...) Eu... Eu...
"Eu o quê? Eu o quê? É ela... Só pode ser ela!"
- Eu também (...) Também te amo!(...) É claro que sim, minha princesa (...) Filhos?(...)Três!(...) Com você, pode ser!(...)
"Atgh! Puta merda... Puta merda! Pense... pense... Arrume uma desculpa... Qualquer coisa, pior não vai ficar... Ah! Primeiro finjo que não estou ouvindo a conversa... Isso... Então antes que ele possa falar qualquer coisa, eu falo que... Sei lá que... Que, por outro lado, os dois se amam e... Ele vai desligar!"
- Tá... Tchau... Amanhã a gente se vê... Tá... Mando sim! Beijo!
"Pense, pense... é agora, é Agora... "
-Era... Era ela!
- Ah... Quem? A vaca?
"EU DISSE ISSO ALTO? EU DISSE ISSO ALTO?"

sábado, 19 de janeiro de 2008

Dialogando com Yamandú e Hamilton no Ibira

O BARRIGA estava lá no Show do Yamandú Costa e do Hamilton de Holanda e... sinceramente, está sem palavras!


BARRIGA - ... (...)... Demais! Nada como deixar de lado tudo para ouvir de um diálogo interessante entre dois interpretes.
Nos poucos momentos de diálogo verbal, cada um usa o seu tipo de timidez para conquistar a platéia!
Hamilton se mostra um pouco mais extrovertido, encabeçando a apresentação das músicas - o que eu acho indispensável em um show instrumental - enquanto Yamandú esconde uma certa doçura com um ar mais seco, falsamente sisudo, atrapalhado com um microfone que não funciona! (Mesmo no Auditório Ibirapuera, não se deixa de estar no Brasil).
Variando entre a aparente timidez e a inquestionável segurança quando acompanhados de seus instrumentos, os artistas logo ficam a vontade... E o público segue o exemplo!
Sem dúvida posturas muito simpáticas! Não há estrelismo, nem egotrip, nem muita firula...
Nem precisa mesmo... Eles estão alí para tocar! Não para serem vistos!

O diálogo mesmo se dá nos números musicais, onde tudo vira conversa!

Do lado de lá do palco, apesar da virtuosidade e da "fritadeira"dos músicos "Papa-léguas"(como geralmente são chamados, segundo o próprio Yamandú), deixamos de enxergar o instrumento e ficamos todos inteiramente ligados nessas duas figuras que são a combinação de um violão de sete cordas, um Bandolin de 10, e das caretas, expressões, movimentos, andamentos, ruídos... E então... Zap!
De repente você está em cima do palco, com eles, trocando idéia... É como ser um primo tímido, ainda pouco enturmado, que prefere fica só ouvindo o assunto com interesse.
Donos de um maravilhoso trabalho, a dupla compila neste show desde lindas e sentimentais valsas, até sambas e choros muito animados, sempre em arranjos lindíssimos, que exploram as mais inusitadas variações de dinâmica, e a precisão das intermináveis frases melódicas em velocidade de tirar o fôlego.
Os destaques do Show são:
A composição de Hamilton chamada ESTAÇÕES, composta durante o período em que morava na França, com um tema muito marcante, que flerta com a música e o universo do Flamenco.
E o inacreditável SAMBA DO RAPHA (não sei se é esse mesmo o nome)do Yamandú, dedicado ao violonista já falecido Raphael Rabello, e o seu jeito de interpretar sabas no violão que, por definição do próprio autor, é "um samba sacana, no bom sentido".
E o melhor de tudo... O Show foi a gravação de um CD ao Vivo!


sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

GRAMÁTICA DE SUPERMERCADO

BARRIGA reclamando na fila do supermercado:

BARRIGA - Como? o quê? Como disse?
- Eu disse que este caixa não pode ser aberto agora, senhor... O Senhor vai ter que entrar na fila...
BARRIGA - É um absurdo! Um Absurdo! Vinte caixas no supermercado, Vinte! E só um aberto! eu vou ligar pro PROCON!
*****
- Eu também acho um absurdo!
BARRIGA - Não é?
- A gente se espreme em uma filinha e espera horas...
BARRIGA - Pois é... Era disso que eu reclamava ali com o rapaz...
- Eles tinham que dar um jeito nisso, não é?
BARRIGA - Tinham, eu pedí para abrir o outro caixa, mas ele não abriu... Disse que não podia...'
- Xiii... Eu conheço esse papo, é preguiça, sabe?... Esse povo de supermercado não ganha comissão, então não tem incentivo para trabalhar direito... Sabe?
BARRIGA - Er... Sei... é como é o brasileiro, não é? Sua vez...
- Como?
BARRIGA - É a sua vez no caixa!
- Ah, sim... Pois é... Obrigada... Demora tanto que... né? Olha moça, eu e o meu amigo aqui estavamos falando que é um absurdo só ter um caixa aberto. Tem que ter mais caixas abertos, viu?
- Senhora, eu infelismente não posso fazer nada... Mas se a senhora quiser falar com o gerente...
- Não, deixa... Pelo jeito ninguém aqui tem cérebro para resolver esta questão!
- Deu 169 e 21!
- Como?
- A conta... 169 reais e 21 centavos!
- Que roubo! Tá errado! passa de novo que eu acho que você deve ter feito burrada!
- Não senhora, eu passei tudo direitinho...
- Deixa eu conferir... Hum... Sei...Tá muito caro esse mercado, viu, mocinha...
- Sim, senhora!
- Eu só vou levar essa compra porque a minha casa tá sem o básico! Toma...Passa no cartão!
- Sim, senhora...
- Tá vendo moço... 170 reais... E o senhor tá de prova que eu não to levando nada demais, não é?
BARRIGA - Pois, é... não é?
- Moça...
- Oi...
- A senhora vai me desculpar mas, nós estamos sem sistema! A senhora teria em dinheiro, ou cheque?
BARRIGA - Ai, meu Deus...
- Eu não acredito nessa espelunca! Chama o gerente! Chama o gerente!
- Já estou chamando, senhora...
- Como é possível! só tem gente ignorante trabalhando nesse supermercado? Foram buscar esse povo aonde? no supletivo pro maternal? Chama o gerente!!!
- Calma que ele já vem... Senhora...
- Como assim, sem sistema?
- O sistema caiu, senhora...
- Caiu de onde? Da prateleira? Hahaha... Tá vendo moço! O povo do Brasil é muito ignorante!
- Posso ajudar?
- Pode Wellington, pode! Tira essa cliente daqui, antes que eu perdo a paciência...
- O quê é isso, Carolaine?Isso é jeito de tratar a cliente!
- Pois é um absurdo mesmo, além de não saber falar, essa aí, foi extremamente mal educada comigo...
- Mal educada? É verdade, Carolaine?
- Mal educada o seu cú! Vaca!
BARRIGA - Puuuuuuuutzzzz....
- Carolaine, por favor! Senhora, me desculpe o transtorno... A nossa funcionária está passando por momentos difíceis...
- É um absurdo! É por isso que vivemos nesse país atrasado! As pessoas não tem profissionalismo! Não tem instrução! Eu só quero ser bem atendida, só isso! E esse senhor atrás de mim também... Ele viu tudo! ele está de prova que eu fui fina e educada. A confusão é porque o senhor não sabe gerenciar nem esse buraco, nem esses seus funcionários... Esse senhor está de prova, não é?
- Que senhor?
- Ué... pra onde ele foi?
- Ele quem?
- Um... Meio Gordinho... Bom, aposto que ele foi telefornar pro PROCON!!!

Tédio!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

DUAS MALAS E UM JOHNNY

A minha interfaçe mala, o BARRIGA DE CENA foi ao teatro para encontrar outro de sua própria natureza.

Na sexta-feira passada (dia 11 de janeiro) ele assistiu a estréia de O MALA, texto de Larry Shue e direção de Isser Korik. No elenco estão José Rubens Chachá, Otávio Martins, Tânia Kalill, Eduardo Leão, Wanderley Martins, Luisa Meneghini, Victor Bianchi e Johny Soihet.

BARRIGA: Teatro para o grande público. Uma "comediona rasgada" que arranca risos com situações atrapalhadas. é bem divertido, mas... Não faz muito o meu gênero. De qualquer maneira. o elenco mata a pau no rítimo de citicom e "salva" o texto que, de tão fraco, não traz ao público uma mensagem interessante, nem articula um tema importante ou, pelo menos, pertinente. Mesmo Assim, uma qualidade do texto precisa ser destacada: não é pretencioso. O texto parece não se levar a sério, o que dá um clima agradável à experiência.
Chachá, Martins e Leão dão um show.


O BARRIGA surpreendeu! Domingão ele convidou a patroa prum cineminha (o que não acontecia a um ano e meio) foi ver MEU NOME NÃO É JOHNNY.

BARRIGA: Porra! Filmão!!! Uma corda bamba animal !!! O roteiro, os diálogos, a direção e até o próprio Selton Melo, parecem o tempo todo que vão descambar, que vão cair ora no moralismo corrosivo da Rede Globo, ora na porraloquice de inversão de valores do Tropa de Elite... E não cai! Balança, balança... E dessa tensão "borderliner"(para usar o conceito da moda) é que se tira um bom filme! Gostei! Principalmente por não cagar regra! Por não tentar trazer o tema para a discussão. O tema está claro, mas a discussão é la fora do cinema. No meio do filme mesmo, só a historinha... E uma pusta trilha sonora! FANTÁSTICA que rouba a cena e dá o tom certo do filme.
A trilha é a vara do filme na corda bamba...

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

PAULO CORONATO NÃO ESTÁ MORTO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

o BARRIGA DE CENA, meu alter ego novinho (comprado em vezes nas Casas Bahia), assistiu ontem a estréia do espetáculo PAULO FRANCIS ESTÁ MORTO, texto que marca a entrada de Paulo Coronato para o Dramaturgos Futebol Clube da cena Paulistana. A montagem - que acaba de entrar em cartaz no Teatrix - tem direção assinada por Denise Weinberg e é interpretada pelo próprio Coronato e por Flavia Garrafa.

BARRIGA: O texto de Paulo Coronato ao abordar um choque de gerações muito pertinente (o encontro de um ator experiente, intelectual e uma atriz atraente, fútil) propoe uma análise da situação profissional dos artistas no país, e vai além dela.
O texto é apenas um pequeno recorte da classe artística, assim como um recorte da sociedade ou da humanidade, um recorte... Uma parte. A encenação e a direção de ator do espetáculo segue a dica do texto e, "É só um recorte" parece ter sido uma frase recorrente durante o processo... Assim, sem se vender a vontade de espremer muito conteúdo em apenas um recorte, Denise Weinberg escolhe o perigoso caminho da verdade cênica, é bem sucedida, investindo num cuidado microscópico sobre os dois. Tudo muito específico, muito micro.
Tão micro que pediu uma encenação micro. Sem muitas convenções, fugindo das armadilhas da teatralidade, que sempre nos tenta a subestimar o público. "Foi uma terapia para todos nós!" disse a Denise Weinberg no dia da estréia... Acredito... tudo muito verdade! FLAVIA MUITO VERDADE! Gostei! achei pertinente, a peça certa, no lugar certo, a direção certa, com os atores certos, para o público certo, no momento certo...
A verdade dos atores me deu vontade de ler Grotowski... O texto me deu vontade de ler o Rasga Coração, do Vianinha... Não deu, não tive tempo! Fiuquei pensando em como ganhar dinheiro...
Aliás, o fato do ator/autor e da atriz do espetáculo serem casados confunde também a quem conhece os dois pessoalmente, fazendo ainda mais gostoso o jogo de cena. Mas quem acha que o Paulo interpreta a ele próprio em cena se engana!!! Paulo Coronato não é o intelectual Hugo Hoffmann, nem a iniciante Sandra Gonçalves, muito menos o Paulo Francis... O Paulo é os três! Como todos nós... Brigando pela arte, e pelo pedaço de pão. Pelo nosso cérebro, e pelos quilinhos a menos!